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segunda-feira, 20 de abril de 2009

"Tejo que levas as águas"

«Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar.

Lava-a de crimes e espantos
de roubos fomes terror
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amor.

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro.


Lava palácios vivendas
casebres bairros de lata
leva negócios e rendas

que a uns farta a outros mata.

Leva nas águas as grades

de aço e silêncio forjadas

deixa soltar-se a verdade

das bocas amordaçadas.


Lava avenidas de vícios
vielas e amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais.

Afoga empenhos favores
vãs glórias ocas palmas

leva o poder de uns senhores

que compram corpos e almas.


Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo

rostos corpos destroçados

lava-os com sal e iodo.

Tejo que levas as águas

correndo de par em par

lava a cidade de mágoas

leva as mágoas para o mar».

Poema de Manuel de Oliveira
Música de Adriano Correia de Oliveira


terça-feira, 7 de outubro de 2008

"As Balas"









"Dá o Outono as uvas e o vinho
dos olivais azeite nos é dado
dá a cama e a mesa o verde pinho
as balas deram sangue derramado

Dá a chuva o inverno criador
às sementes dá sulcos o arado
no lar a lenha em chama dá calor
as balas deram sangue derramado

Dá a primavera o campo colorido
glória e coroa do mundo renovado
aos corações dá o amor renascido
as balas deram sangue derramado

Dá o sol as searas pelo verão
o fermento no trigo amassado
no esbraseado forno cresce o pão
as balas deram sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
de conquistar o bem que lhe é negado
dá a conquista um puro sentimento
as balas deram sangue derramado

De meditar concluir ir e fazer
dá sobre o mundo o homem atirado
à paz de um mundo novo de viver
as balas deram sangue derramado

Dá a certeza o querer e o construir
o que tanto nos negou o ódio armado
que a vida construir é destruir
balas que deram sangue derramado

Essas balas deram sangue derramado
só roubo e fome e o sangue derramado
só ruína e peste e o sangue derramado
só crime e morte e o sangue derramado"

Manuel da Fonseca / Adriano Correia de Oliveira