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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Fome... Terrorismo diário!

Segundo notícia de hoje aumentou em 40 milhões o número de pessoas que sofrem de fome em todo o mundo! Esta notícia que não faz primeiras páginas de jornais nem abre telejornais é mais uma a juntar a uma outra que há pouco tempo divulgava que todos os dias morrem no mundo 7 mil pessoas vítimas directa ou indirectamente da fome!

Sim! Todos os dias... a cada dia que passa morrem 7000 homens, mulheres e crianças vítimas de fome!

Sim! Todos os dias... 7000 famílias (Víuvas e viúvos, órfãos, mães e pais) choram os seus mortos, aqueles que ainda conseguem chorar com as poucas forças que a fome ainda não lhes roubou!

Sim! A cada dia... acontecem 3,5 atentados iguais ao das torres gémeas de Nova Iorque.

Sim! A cada dia... o sistema capitalista mundial deixa morrer (ou mata?) 7000 homens, mulheres e crianças.

Sim! A cada dia que começa os órgãos de bajulação social... perdão de comunicação social fazem-se de esquecidos... calam... censuram!!!!... estes 3,5 actos terroristas.

Sim! A cada dia que passa censuram!!! a noticia da morte de 7000 pessoas, a dor de 7000 famílias...

Sim! A cada dia que passa... Eles deixam morrer (ou matam?), calam e censuram!...

domingo, 30 de novembro de 2008

Eles





















(...) eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada(...)
José Afonso

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Eles não sonham

"(...)Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."




António Gedeão, Poema "Pedra Filosofal in 'Movimento Perpétuo'



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Carpinteiro








"Eu sou um carpinteiro cego, sem mãos. Vivi
sob as águas, alimentado pelo frio,
não construí as caixas aromáticas, as residências
que cedro a cedro erguem a grandeza,
mas o meu canto procurou os fios do bosque,
as fibras secretas, as ceras delicadas,
e corou ramos, perfumando
a solidão com lábios de madeira.

Amei todas as matérias, cada gota
de púrpura ou de metal, a água e a espiga,
e penetrei em espessas camadas protegidas
pelo espaço e a areia trémula,
até cantar com a boca destruída,
como um morto, nas uvas da terra.(...)"


Excerto do Poema "A linha de Madeira" in "Canto Geral" de Pablo Neruda

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Carta Aberta ao Primeiro Ministro

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Engenheiro José Sócrates

Dirijo-me humildemente a Vossa Excelência para lhe expor uma situação que certamente terá a sua compreensão. Mas antes peço-lhe desculpa por o estar a importunar... Sei que tem muitas preocupações e é uma pessoa muito ocupada com problemas muito importantes que não estão ao alcance do comum dos mortais. Não quero, sinceramente, perturbar o seu trabalho nem a sua concentração na resolução desses problemas com as bolsas, os off-shore e essas coisas todas.
Mas é que eu ouvi nas noticias que Vossa Excelência iria apoiar com uns 20 mil milhões de euros os bancos por causa dos "produtos financeiros tóxicos" com os quais os Srs. banqueiros terão ficado intoxicados...
E eu pensei que Vossa Excelência poderia dar alguma atenção à situação que eu lhe queria expor e que tem também haver com intoxicação financeira que me foi causada por aumentos de produtos como a luz, o passe dos transportes, os combustíveis, as taxas de juro, o leite, o pão, as batatas e outros que eu não refiro para não o ocupar mais... Mas referir-lhe ainda que eu tive aumentos nos últimos anos bem inferiores ao aumento dos lucros dos bancos... e que eu já me contentava com meia dúzia de centenas de euros!
Grato pela sua atenção.

Sem outro assunto envio a Vossa Excelência os meus sinceros cumprimentos


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

"Cavalo à solta"

"Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura."

Poema de Ary dos Santos
Musica de Fernando Tordo

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Neruda




"(...) Quero estar na morte com os pobres que não tiveram tempo para estudá-la (...)"
Pablo Neruda


terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Paz é o caminho!



"Não existe um caminho para a Paz! A Paz é o caminho!"


Mahatma Gandhi


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Os Miseráveis

" (...) Vi os miseráveis, uns empilhados
por cima dos outros, do sofrimento dos seus irmãos,
as ruas semelhantes a rios de aflição,
as pequenas aldeias esmagadas
entre as espessas unhas de flores,
e andei na multidão, sentinela
do tempo, abrindo enegrecidas
cicatrizes, lutas de escravos.
Entrei nos templos, os seus degraus
são feitos de estuque e pedrarias, de sangue e morte sujos, (...)"

Excerto do Poema "Longe Daqui" de Pablo Neruda, in Canto Geral



Quadro "Os miseráveis" de Adalberto Lutkemeyer Pintura a Oléo

domingo, 26 de outubro de 2008

Incendiando o céu













"Oh tu, mais doce, mais interminável
que a doçura, namorada carnal
no meio das sombras: tu surges
de outros dias, enchendo de pesado pólen
a tua taça de delicia.

Duma noite cheia
de ultrajes, duma noite como o vinho
desvairado, duma noite de púrpura oxidada,
desabei sobre ti como uma torre ferida,
e entre os pobres lençóis a tua estrela
palpitou contra mim, incendiando o céu. (...)"

Excerto do poema "A estudante" de Pablo Neruda

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

"Poeta castrado não!"













"Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!"

Poema de José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Morre lentamente"

"Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio de felicidade."

Pablo Neruda.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

"As Balas"









"Dá o Outono as uvas e o vinho
dos olivais azeite nos é dado
dá a cama e a mesa o verde pinho
as balas deram sangue derramado

Dá a chuva o inverno criador
às sementes dá sulcos o arado
no lar a lenha em chama dá calor
as balas deram sangue derramado

Dá a primavera o campo colorido
glória e coroa do mundo renovado
aos corações dá o amor renascido
as balas deram sangue derramado

Dá o sol as searas pelo verão
o fermento no trigo amassado
no esbraseado forno cresce o pão
as balas deram sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
de conquistar o bem que lhe é negado
dá a conquista um puro sentimento
as balas deram sangue derramado

De meditar concluir ir e fazer
dá sobre o mundo o homem atirado
à paz de um mundo novo de viver
as balas deram sangue derramado

Dá a certeza o querer e o construir
o que tanto nos negou o ódio armado
que a vida construir é destruir
balas que deram sangue derramado

Essas balas deram sangue derramado
só roubo e fome e o sangue derramado
só ruína e peste e o sangue derramado
só crime e morte e o sangue derramado"

Manuel da Fonseca / Adriano Correia de Oliveira

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Belmiro de Azevedo e o sabonete de ouro

Belmiro de Azevedo, o homem mais rico em dinheiro de Portugal é também o mais pobre de espírito do País.
Isto a propósito de uma decisão de um tribunal deste País.
O Modelo/Continente tinha apresentado queixa-crime contra um trabalhador por este no momento em que foi à casa de banho ter verificado que não havia sabonete para lavar as mãos e ter-se dirigido à prateleira do Hipermercado e tirado um sabonete para por na casa de banho do próprio Hipermercado. A empresa decidiu acusá-lo de roubo. O Ministério Público decidiu arquivar o caso por falta de motivos para a acusação.
Mas não posso deixar de ficar preocupado com a situação do Modelo/Continente e do Sr. Belmiro. E penso: Será que ele deixou de almoçar por causa do prejuízo do sabonete?... Ele talvez não!... Mas os seus trabalhadores... esses, sim, deixam de comer muitas vezes devido aos salários de miséria que o Sr. Belmiro lhes paga!!!
Dá vontade de dizer ao Sr. Belmiro: Meta o sabonete no cú!!!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O fim do "fim da história"

Tem-nos sido vendido por analistas "amigos do capitalismo", economistas "pró-sistema" e Jornalistas bajuladores das opiniões dos seus patrões que tínhamos chegado ao fim da história e que o sistema de mercado era o bem maior e a solução infalível para tudo.
Pois bem, hoje assistiu-se a um rodopio de medidas para salvar o sistema de mercado capitalista, Governos investem milhões dos nossos impostos para salvar empresas, os mesmos Governos que não gastam esses milhões dos nossos impostos para nos aumentar os salários.
Governos capitalistas nacionalizam bancos para os salvar, os mesmos Governos capitalistas que diziam que nacionalizar bancos era anti-democrático.
Os defensores do sistema balbuciam e gaguejam desculpas esfarrapadas culpando o estado por não ser regulador, os mesmos que há dias atrás defendiam acerrimamente que os estados não deviam intervir no mercado. Defensores esses que afirmam dogmaticamente que acreditam na regeneração do sistema, sistema esse que parece uma galinha a correr depois da cabeça cortada, já morta mas ainda não o percebeu.
Mas hoje ouviu-se da boca de alguns destes comentadores algumas perguntas interessantes: O sistema de mercado faliu? Será o fim do capitalismo? As respostas talvez ainda demorem, porém com uma certeza ficamos: a História não tem fim por mais que o proclamem!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"Carta aberta a Bush"

"Sou um escritor de uma nação pobre, um paí­s que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tí­nhamos feito.

Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderí­amos constituir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.

Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos ví­timas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre paí­s, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não só um homem mas um paí­s. Sim, um paí­s que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem á eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razâo desses terrí­veis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso paí­s. Que terrí­veis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente.

Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é
tão grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações;

- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegí­timo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;

- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);

- Como tantos outros dirigentes legí­timos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorí­dico;

- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais á espionagem americana:

o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;

- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";

- O vosso paí­s albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos lí­deres mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado á revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.

- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único paí­s (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.

- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.

- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Lì­bano (1983-1984), a Lí­bia (1986), Salvador (1980), a Nicará¡gua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)

- Acções de terrorismo biológico e quí­mico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suí­na naquele país.

- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500,000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra quí­mica das forças norte-americanas.

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque não éSaddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.

O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.

Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. é tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou á morte meio milhão de crianças iraquianas.

Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)

Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.

O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana.

Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram lí­deres popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos.

Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos paí­ses do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa.

Preferí­amos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.

Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissâo por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra sá pode ser vencida pelos próprios americanos.

Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar."

Carta aberta a George Bush, escrita por Mia Couto, semanas antes do inicio da Guerra do Iraque
convêm relembrá-la alguns anos e centenas de milhares de mortos depois!


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Madrigal"

"Tu já tinhas um nome, e eu
não sei se eras fonte ou brisa
ou mar ou flor.

Nos meus versos chamar-te-ei
amor..."

Eugénio de Andrade

domingo, 31 de agosto de 2008

Torga





"
(...) nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. (...)"

Miguel Torga

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo..."


"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos."

Pablo Neruda

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Olimpicos e hipócrisia.

Terminados os jogos olímpicos ficam duas apreciações minhas:
Primeira: A cerimónia de abertura foi uma lição de humanismo sobre a cultura e a História dos povos não a História das elites, o que numa época de globalização formatadora de consciências é de assinalar.

Segunda: Para a postura elitista, a atitude arrogante e ignorante com que jornalistas, comentadores desportivos e responsáveis governamentais e os seus comentários sobre os atletas olímpicos portugueses, sobre isto vários factos:
1. O Presidente do comité olímpico português diz que não se recandidata após ter dito que os atletas não deviam arranjar desculpas para os resultados e tinham pouca educação e depois da medalha de Ouro do Nelson Évora já se candidata de novo!!!! Este senhor patético devia demitir-se e deixar alguém que saiba um pouco mais do que lidar com pessoas como se de animais se tratassem tomar conta do assunto.

2. Jornalistas que qualificaram como decepcionante a participação portuguesa, curioso para quem passa 4 anos a dar noticias exclusivamente sobre futebol agora terem opinião sobre outros desportos...

3. Os comentadores de futebol (Fernando Seara; Reinaldo Teles e Dias da Cunha) que durante 4 anos se limitam a dizer baboseiras, disparates e conversa de tasca sobre futebol que muitos bêbados deste País fazem com muito mais qualidade, acharem-se agora no direito de criticar o empenho de atletas que fazem muito mais pela divulgação da imagem do País do que estes "primatas desportivos" alguma vez farão. E terem a distinta "lata" de sugerir que os atletas que não obtêm resultados deviam devolver o dinheiro que receberam do Estado! Tirando a visão ridícula que a promoção do desporto não serve para nada inerente a esta teoria, sobra a hipocrisia daqueles apoiantes de clubes de futebol que nunca levantaram a voz para pedir de volta aos seus clubes os milhões que receberam para construir os seus estádios de futebol, milhões esses que dariam para pagar as missões olímpicas das próximas décadas...
Haja decência!

4. Por fim o Secretário de Estado do Desporto disse que gosta mais de ver os atletas a competir do que a falar, já eu prefiro ver os atletas competir e falar do que ouvir os sons emitidos como fala do Sr. Secretário de Estado!
.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Música sobre George Bush












Vale a pena ver esta impressionante e acertada música (Dear Mr. President) de Pink sobre o arrogante e ignorante Presidente dos EUA.

.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

"Sonho Impossivel (The Impossible dream)"

"Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã este chão que eu deixei
Por meu leito e perdão
Por saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão"

Composição: J.Darion / M.Leigh / Ruy Guerra

versão de Maria Bethania

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A pisa da uva

"(...)De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. e como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-lo como talismãs, passeavam então os volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos. (...)"

Miguel Torga, Excerto de "Vindimas"

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pesadelo

"(...)A lembrança dela vinha-lhe por surtos, como se tivesse sezões na alma. De repente, sem mais nem menos, invadia-o a cheia irremediável do desejo cruciante de a possuir, de a ver, de trocar nos sentidos exacerbados a imagem pela realidade. A princípio, era diferente. A tentação começava duma maneira insidiosa, sorna, assaltando a fortaleza com vagar e manha. Primeiro as muralhas exteriores; depois, e por cada vez, as portas principais do reduto. O castelo rendia-se, mas com honra. Agora, porém, era uma derrota instantânea. Mal dava conta, estava nas mãos do inimigo. Só quando, exausto, o corpo se relaxava, o fantasma se perdia na bruma, levado pelas mesmas asas que o traziam.
Vencido por essa presença doentia, ficava sem qualquer acção dentro do barco, entregue às forças do pesadelo. (...)"

Miguel Torga, Excerto do conto "Marinha" do livro "Pedras Lavradas"

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Velha amiga

"(...)Longe, na praia, do outro lado da grande duna, a faina começara. Um confuso ruído de gritos e de esforço trazia o testemunho de que ninguém renunciara, ali. Mas nenhum exemplo deste mundo lhe poderia valer. O desejo, a palavra ou a presença de alguém só conseguiriam ser naquela hora um motivo a mais de crucificação. A própria lagoa, a olhá-lo com insistência, o alvoroçou no primeiro momento. Mas era a lagoa, a sua velha amiga...(...)"

Miguel Torga, Excerto do conto "O Segredo" da obra "Pedras Lavradas"

terça-feira, 29 de julho de 2008

Dia triste

"(...) Hoje o dia esteve triste, chuvoso, sem uma única aberta, como a minha futura velhice. Sinto-me apertado em pensamentos tão estranhos, em sensações tão obscuras, voltreiam na minha cabeça questões tão nublosas - e eu sem força nem vontade para resolvê-las. Nem sou eu quem pode resolvê-las. (...)"

Fiódor Dostoiévski, Excerto de "Noites Brancas"

quarta-feira, 23 de julho de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

"Yolanda"

"Esto no puede ser no mas que una cancion
Quisiera fuera una declaracion de amor
Romantica sin reparar en formas tales
Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales
Te amo
Te amo
Eternamente te amo
Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano
Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto
Tu me desnudas con siete razones
Me abres el pecho siempre que me colmas
De amores
De amores
Eternamente de amores
Si alguna vez me siento derrotado
Renuncio a ver el sol cada mañana
Rezando el credo que me has enseñado
Miro tu cara y digo en la ventana
Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Eternamente Yolanda"

Pablo Milanês


O Teu Retrato

Quero tirar o teu retrato
Mas não o fotográfico,
Quero tirar aquele retrato
Que mostre para lá do corpo
Que veja para lá da pedra de gelo...

O retrato que mostre a sensibilidade
De quem gosta de coisas simples
E mostre o brilho no olhar,
De alguém, que se encanta com o suar
Dos corpos dos trabalhadores

O retrato que mostre o olhar matreiro
Da menina que afoga galinhas
E mata com uma fisga as osgas.
Que finge chorar uma lágrima
Para que a deixem jogar à bola

Quero tirar o retrato
Que mostre um coração amordaçado
A querer falar, gritar e sorrir
Um retrato que mostre o medo
Que só as pessoas sensíveis possuem.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Lixo jornalístico

João Pereira Coutinho, escreve num dos seus artigos de opinião da Revista única, sobre as FARC e o posicionamento do PCP face ás FARC.
O artigo é exemplar pela sua dualidade, seguidismo e incapacidade crítica o que não é de estranhar, é para isso que lhe pagam e como bom "cão-de-fila" ele lá vai escrevendo aquilo que agrada aos chefes.
Seria pedir muito a João Pereira Coutinho que disse-se que Uribe não só "pretende exterminar" os "terroristas" mas também os sindicalistas e todos os que se lhe opõem e que tem conseguido "dizimar" muitos dos que ousam criticá-lo.
Seria pedir muito a João Pereira Coutinho que relata-se a mortandade causada, entre as populações da Colombia, pelos para-militares de extrema direita, financiados por Uribe e por multinacionais norte-americanas (como uma investigação do Congresso dos Estados Unidos comprovou).
Seria pedir muito a João Pereira Coutinho que disse-se que o PCP apresentou um voto na Assembleia da Republica que não só felicitava a libertação da senhora, mas condenava também as práticas do Sr. Uribe.
Seria pedir a João Pereira Coutinho que fosse verdadeiro e honesto, mas não lhe pagam para isso...

sábado, 12 de julho de 2008

Recordações

"(...) Nas recordações de qualquer homem há certas coisas que ele não revela a toda a gente, apenas aos amigos. Há outras que nem aos amigos ele revelará, apenas a si mesmo e só secretamente. E, finalmente, há outras que o homem até a si mesmo tem medo de revelar, e qualquer homem até a si mesmo tem medo de revelar, e qualquer homem decente acumula bastantes recordações dessas. Ou seja, quanto mais decente for, tantas mais recordações dessas tem. Pelo menos, eu, pessoalmente, só há pouco ousei recordar certas aventuras do meu passado, a que até então me esquivara com uma espécie de inquietação. Ora, neste momento, quando não só estou a recordá-las mas ainda por cima me atrevo a anotá-las, queria experimentar: é possível, ou não, ser-se absolutamente sincero pelo menos consigo mesmo e não ter medo de toda a verdade? (...)"

Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Promessa do "mercado livre"

"(...) Os meios de comunicação globais fabricam as notícias e distorcem abertamente o curso dos acontecimentos mundiais. Esta "falsa consciência" que se infiltra na nossa sociedade impede o debate crítico e mascara a verdade. Em última análise, nega o acesso a um entendimento colectivo dos mecanismos de um sistema económico que está a destruir a vida das pessoas. A única promessa do "mercado livre" é um mundo de agricultores sem terra, fábricas fechadas, trabalhadores sem emprego e programas sociais destruídos, com o "amargo remédio económico" da OMC e do FMI a constituírem a única receita. Temos a obrigação de restaurar a verdade, de denunciar os meios de comunicação de massas controlados pelas empresas, devolver a soberania aos nossos países e aos povos dos nossos países e desarmar e abolir o capitalismo global. (...)"

Michel Chossudovsky, A globalização da pobreza e a nova ordem mundial

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Transbordante felicidade

Procuro em cada palavra tua
o momento de te encontrar.
Em cada olhar teu
vejo a beleza dos sentimentos.
Em cada sorriso dos teus lábios
imagino o gosto do teu beijo.
Em cada gesto teu
sinto o calor do teu abraço.
E a cada vez que te revejo
sinto uma transbordante felicidade.


domingo, 6 de julho de 2008

O fundamentalismo da ignorância

A Lei do tabaco que impede o fumo em locais públicos fechados conseguiu permitir que os fundamentalismos de alguns ignorantes se soltassem.
Não que eu discorde da Lei... pelo contrário, concordo. O problema está em uns quantos que se soltaram, à custa da Lei, para virem demonstrar todo o tipo de argumentos fundamentalistas baseados em opiniões de uma espécie de teologia dogmática sobre a saúde e o bem estar.
Toda esta minha dissertação vem a propósito de me ter deparado com o insólito aviso de proibição de fumar num parque de estacionamento automóvel coberto do Cascais Shopping, passe a publicidade. Tanto quanto eu saiba estes parques de estacionamento devem ter extracção de fumos para terem Licenças que lhes permitam funcionar...
Então, várias hipóteses se colocam:
1ª - Este parque não ter extracção de fumos pondo em perigo a vida das pessoas, uma vez que todos conhecem o perigo, de envenenamento por monóxido de carbono, que é ter carros a trabalhar em espaços fechados.
2ª - Os Senhores do Cascais Shopping serem uns cientistas malucos que tenham descoberto que o tabaco é mais prejudicial à saúde do que snifar os fumos de um tubo de escape de um automóvel
3ª - Os senhores do Cascais Shopping serem uns fundamentalistas que querem impôr a sua opinião aos outros!!!

sábado, 5 de julho de 2008

"Um Homem na Cidade"

"Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.

Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.

Sou a gaivota que derrota
todo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem."


Ary dos Santos / Carlos do Carmo

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Soneto da Fidelidade"

"De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure"

Vinicius de Moraes

PS: Para uma feia

terça-feira, 1 de julho de 2008

Minuto de alegria e felicidade

"(...)Nunca me passaria pela cabeça obscurecer com uma nuvem sombria a tua felicidade serena e límpida, nem, com uma acusação amarga, encher de angústia o teu coração, feri-lo de secretos remorsos e obrigá-lo, no momento de felicidade, a bater com mágoa, nem pisar nenhuma daquelas ternas flores que entrelaçaste nos teus caracóis negros quando subiste com ele ao altar... Oh, nunca, nunca! Que seja límpido o teu céu, que seja claro e sereno o teu sorriso, que para sempre sejas louvada pelo minuto de alegria e felicidade que levaste a outro coração, solitário e agradecido!(...)"

Fiódor Dostoiévki, Excerto de "Noites Brancas"

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Hesse 2

"(...) no circulo dos pequenos, dos oprimidos e dos pobres, a existência não só é igualmente variada, como geralmente mais quente, mais verdadeira e exemplar que a dos favorecidos pela sorte e os grandes. (...)"

Hermann Hesse
Excerto de "Peter Camenzind"

Legalizar a imoralidade e a injustiça!

A proposta de código de trabalho que foi acordado entre o Governo, os Patrões e a central Sindical dos patr... perdão... a UGT consegue a proeza de, tal como disse o Sr. Francisco Van Zeller, representante dos patrões, "legalizar o que é ilegal". E legaliza mesmo o que é ilegal. Conseguem legalizar o trabalho precário. Não acabam com ele nem o querem fazer!
Mas pode o Sr. Van Zeller ter o despudor de festejar e brindar com champanhe este acordo e o facto de legalizar as ilegalidades. Porque não torna moral o que é imoral nem torna justo o que é injusto!
E podem festejar tudo o que quiserem, porque qualquer que seja o desenvolvimento daquilo que acordaram e querem tornar lei, o povo e os trabalhadores hão-de colocar o trabalho precário no mesmo lugar que colocaram, na História da humanidade, a escravatura!
Quer o Sr. Van Zeller, o Sr. Proença e o Sr. Sócrates queiram ou não!!!!!!!!!
.

domingo, 29 de junho de 2008

"Há homens que lutam um dia, e são bons"

"Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis"

Bertold Brecht

sexta-feira, 27 de junho de 2008

"O que será (à flor da Pele)"

"O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo"


Chico Buarque/ Milton Nascimento

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Lavagem cerebral

Não existem muitas palavras para descrever a lavagem cerebral que é imposta aos alunos que realizaram a prova de história do 12º Ano. Prova de história da responsabilidade da Srª Ministra da Educação. Esta prova assenta numa táctica fascista de que uma mentira repetida muitas vezes transforma-se em verdade, como dizia o outro, que a história, não a história da Srª Ministra mas aquela que é feita pelos povos, derrotou.
Numa verdadeira lavagem ao cérebro, fazem a apologia de um ex-dirigente do seu Partido. Transformam opiniões políticas pessoais e deturpadas em factos históricos. E conseguem a proeza de transformar o crescimento de produção industrial de outros países, que o nosso com a des(governação) da Srª Ministra e de os seus colegas de formação política nunca conseguiu alcançar, como algo negativo e prejudicial! É preciso falta de vergonha na cara...
O problema deles (Srª Ministra e demais correlegionários) virá quando o povo voltar a fazer a história pelas suas mãos, como sempre aconteceu ao longo da história da humanidade, nessa altura as lavagens cerebrais, que tentam realizar sobre o povo, não valerão de nada!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Melancolia

"(...) O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia mas, nessa altura, não estava seriamente perturbado. Ela surgia aqui e além, por um dia ou uma noite, como uma tristeza sonhadora de solitário, mas desaparecia de novo sem rasto, regressando após semanas ou meses. Eu habituara-me a ela aos poucos como a uma amiga íntima, e não a sentia atormentadora, mas apenas como uma inquietude e um cansaço que possuíam a sua própria doçura. Quando me acometia à noite, em vez de dormir, eu deitava-me horas seguidas no vão da janela, olhava o lago negro, as silhuetas dos montes recortadas contra o céu pálido e, por cima, as belas estrelas. Depois, não raro, era tomado de um forte sentimento temeroso e doce, como se toda esta beleza nocturna me observasse com um justo olhar reprovador. Como se as estrelas, as montanhas e os lagos ansiassem por alguém que compreendesse e expressasse a sua beleza e a dor da sua existência, como se fosse eu esse alguém, como se a minha verdadeira missão fosse a de, pela escrita, dar expressão à natureza silenciosa. De que forma seria isto possível, era coisa sobre a qual nunca pensava, senão que sentia apenas a bela noite, grave, esperar por mim numa exigência silenciosa. Também nunca escrevi nada neste estado de espírito. No entanto, tinha um sentimento de responsabilidade frente a estas vozes silenciosas e, usualmente, após noites como esta, eu dava passeios a pé durante dias. Parecia-me que poderia assim manifestar um pouco de amor para com a terra que se me ofertava, numa súplica silenciosa, ideia sobre a qual, depois, eu próprio me ria. Estes passeios tornaram-se numa base da minha vida futura; a partir de então, passei grande parte dos anos como caminhante, em excursões de semanas e meses por diversos países. Habituei-me a fazer longas caminhadas com um naco de pão no bolso, a passar dias a caminho, solitário, e a pernoitar com frequência ao ar livre. (...)"

Hermann Hesse
Excerto de "Peter Camenzind"

Os «sentimentais»

"(...)Tenho conhecido homens que forjam pretextos para trair a amizade de outros. Sabem que falta lisura ao seu procedimento. Mas que poderão fazer, se os interesses de grupo valem mais que as boas vontades de indivíduos do grupo? Sufocam assim o fundo de honestidade que ainda neles possa reagir e afirmam, em palavras convictas a que não corresponde uma convicção, que foram os outros que os traíram. Donde duas consequências igualmente deselegantes: Por um lado, as razões que apresentam são fictícias, os argumentos rebuscados ao sabor das conveniências. Tudo serve para a defesa das suas afirmações: a deturpação do comportamento dos outros, a mentira, os ditos dos vizinhos, as cloacas de informação. Por outro lado - num singular aprumo de singular dignidade - são chocados profundamente, quando alguém se lembra de lhes colar o rótulo de infames. Um homem que traíra a confiança de outro (e que procurava toda a espécie de subterfúgios para evitar a palavra «traição») disse-me que, para ele, o maior desgosto seria a censura pública do seu acto. A esse, como aos que agora me ocupam, o que mais dói não é o facto de procederem mal - isso é questão arrumada para sossego da consciência - mas o facto de outros comentarem duramente o seu mau procedimento. Formam assim uma esquisita fauna de «sentimentais», a quem chocam mais as palavras cruas do que os factos que elas exprimem. (...)"

Excerto do texto Aviso Prévio de Alvaro Cunhal in "Alvaro Cunhal Obras Escolhidas I - 1935-1947"

domingo, 22 de junho de 2008

Imagens musicais

"(...) Há muitos «peritos» em música que consideram falso e diletante que, durante um recital, o ouvinte veja imagens: paisagens, pessoas, mares, trovoadas, alturas do dia e estações do ano. A mim, que sou um leigo, tão leigo que nem consigo reconhecer bem o tom de uma peça, parece-me que ver imagens é natural e bom; de resto, já o reencontrei em bons músicos. Naturalmente que, no concerto de hoje, os ouvintes não viram todos a grande vaga, o recife de solidão e tudo o que eu vi. No entanto, parece-me que esta música deve ter despertado em cada ouvinte a mesma sensação de crescimento orgânico e de vida, de surgimento, luta e sofrimento e, por fim, vitória.
Um bom caminhante devia ter à frente dos olhos a imagem de um longo e perigoso passeio pelos Alpes; um filósofo, o despertar, transformação e sofrimento de uma consciência até à resignação agradecida e madura; um santo, o caminho de uma alma afastando-se de Deus e regressando a um Deus maior e mais puro. Mas nenhum dos que ouviu com atenção pôde menosprezar a carga dramática desta imagem, o caminho da criança ao homem, da transformação ao ser, da felicidade individual à reconciliação com a vontade do universo.(...)

Hermann Hesse
Excerto de "Música"

sábado, 21 de junho de 2008

Maré Humana
















Olho para a imensa maré humana
A descer a avenida, que da liberdade se chama.
Nos rostos alguns sorrisos, de felicidade momentânea,
Que escondem as amarguras dos sofrimentos da vida

Em cada rosto um olhar iluminado de esperança
Em cada braço a força de uma vida dura
Em cada sorriso o desabafo da meta alcançada
Em cada pensamento o sonho de uma melhor vida futura.

São todos aqueles que trabalham
Que se deslocam em mais uma luta,
São todos aqueles que labutam e lutam
Todos os dias por uma vida justa!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Só não vejo...

Vejo o sorriso luminoso
De um rapazito que brinca com um boneco
Como se estivesse receoso
Que alguém lhe levasse o boneco

Vejo um borboleta a voar
Em torno de uma margarida
Indiferente ao facto, milenar,
De num dia se esgotar a sua vida.

Vejo o olhar de cansada
De uma senhora idosa
Que depois de uma longa vida
Se arrasta, na rua, pesarosa.

Vejo os miúdos de mochila às costas
Dirigindo-se lentamente
E sem preocupações, para as escolas,
Querendo um mundo de brincadeiras eternamente.

Vejo os carros que avançam
Na cidade, apressados.
Vejo árvores que espalham
a sua sombra sobre os passeios.

Só não vejo o teu rosto,
Nem o teu encantador sorriso
E fico com uma espécie de desgosto
Por não partilhar o teu olhar bondoso!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Música de sentimentos

"(...) Numa tarde tranquila, ao regressar dos campos, senti tudo claramente pela primeira vez, e quando pensava e tentava descodificar o enigma percebi, de repente, o significado de tudo aquilo, era o regresso dessas horas estranhas e distantes que eu em anos passados apenas pressentira. E com esta lembrança veio a claridade magnífica, a luz quase vítrea e transparente dos sentimentos que ali estavam sem máscara e que não se chamavam dor ou felicidade, mas apenas força e corrente de energia. Tinha-se feito música do movimento, do cintilar e dos meus intensos sentimentos do passado.
Agora eu via nos meus dias claros o sol e a floresta, os rochedos castanhos e as montanhas longínquas prateadas com uma dupla sensação de felicidade, de beleza e de realização, e senti nas horas escuras a dupla emoção do meu coração doente a expandir e exultar e já não distinguia o prazer da dor, eram ambos iguais, e ambos magoavam e eram ambos extraordinários. E enquanto eu sentia dor ou bem-estar, a minha força estava em paz, olhava e reconhecia a claridade e a escuridão como pertencendo uma à outra, como irmãs, o sofrimento e a paz como compassos e forças e parte da mesma grande música. (...)"

Hermann Hesse
Excerto de "Gertrud"

terça-feira, 17 de junho de 2008

"Perguntas de um Operário Letrado"

"Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas"

Bertold Brecht

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Toque do sino












O toque do sino rompe
O calor abrasador do meio-dia
Indiferente ao mendigo
Que sentado no banco do jardim
Fuma a beata que apanhou do chão.

Fuma para enganar a fome que sente
E o seu olhar, sem alegria,
Procura um qualquer amigo,
Enquanto o som do sino ecoa pelo jardim
Indiferente ao mendigo e à sua reflexão.

No outro lado da rua, olhando em frente,
Passa o administrador do banco, com a expressão fria,
Indiferente ao tom amargo
Do eco que, no fim
Do seu badalar, o sino deixa na povoação.

Fica o silêncio quente
Que, cruelmente, amplia
O roer do estômago do mendigo
E a arrogância sem fim
Que o administrador ostenta na povoação.

domingo, 15 de junho de 2008

"Folha seca"

"Todas as flores aspiram a ser fruto
Todas as manhãs a ser noite,
Não há nada de eterno na Terra
A não ser a mudança, a fuga.

Mesmo o mais belo dos Verões anseia
Por conhecer o Outono, o definhar.
Aguenta-te, folha, mantém-te calma,
Quando o vento te quiser arrebatar.

Deixa estar, não tentes defender-te
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixa o vento, que te arranca e parte,
De regresso a casa conduzir-te."

Hermann Hesse
"Elogio da Velhice"

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Democracia deles...

Os resultados do referendo, na Irlanda, ao Tratado de Lisboa foram hoje conhecidos. A vitória do Não e a derrota daqueles que queriam impor aos povos dos vários países da Europa um comando europeu de alguns Governos sobre os outros países - os poderosos dariam as ordens e os países mais pequenos obedeceriam.
Mas estes resultados provocaram um tumulto entre comentadores, jornalistas (que pelas suas intervenções nas televisões, durante o dia de hoje mostraram bem os interesses que defendem) e os Partidos que por cá nos têm (des)governado. O que espanta nos comentários não é a posição que têm sobre o tratado, porque sei a quem servem (não é a mim nem ás outras pessoas que trabalham), mas o despudor, a falta de vergonha e a arrogância com que vomitam sentenças: "...O tratado é muito complicado para as pessoas o entenderem...", "... Não sabiam bem no que estavam a votar...", "... foram enganados com falsidades...". Fica, para mim, claro que a democracia destes comentadores-jornalistas, jornalistas-comentadores e Partidos que nos têm (des)governado é valida e útil quando o povo faz o que eles querem, mas, se não fizer o que eles querem, então, o povo passa a ser estúpido e ignorante...
Talvez por isso, por cá não seja permitido votar se queremos ou não este tratado... Somos obrigados a querer... É a democracia deles...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Nuvens

"(...)Montanhas, lago, tempestade e Sol, eram esses os meus amigos, que me falavam e educavam, e durante longo tempo me foram mais caros e mais profundamente conhecidos que qualquer pessoa ou destino humano. Os meus eleitos, todavia, os que eu preferia ao lago espelhado e aos tristes ventos quentes e rochas ensolaradas, eram as nuvens.
Mostrai-me por esse vasto mundo o homem que melhor conheça ou mais ame as nuvens que eu! Ou mostrai-me a coisa deste mundo que seja mais bela que as nuvens! Elas são brinquedo e consolo do olhar, são bênção e dom de Deus, são a cólera e o poder da morte. Elas são delicadas, suaves e calmas como as almas dos recém-nascidos, são belas, ricas e dispensadoras como anjos bons, são negras, irrevogáveis e fatais como mensageiros da morte. Elas pairam prateadas em ténues camadas, vogam ridentes, brancas com bordos doirados, elas param para repousar com cores amarelas, vermelhas e azuladas. Elas avançam soturnas e lentas como assassinos, golpeam desenfreadas, de cabeça erguida, como cavaleiros loucos, pendem tristes e sonhadoras em pálidas alturas como melancólicos eremitas. Elas têm a forma de ilhas maravilhosas e de anjos a abençoar, assemelham-se a mãos ameaçadoras, velas adejando, grous em migração. Pairam entre o céu divino e a pobre terra, quais metáforas da nostalgia humana, pertencendo a ambos - sonhos da terra, em que esta roça a sua alma conspurcada no céu puro. Elas são a imagem eterna de todo o caminhar, da busca, da ânsia e da saudade do lar. E assim elas pendem entre a terra e o céu apreensivas, ansiosas e obstinadas, assim pendem apreensivas, ansiosas e obstinadas as almas dos homens, entre o tempo e a eternidade.(...)

Hermann Hesse

Excerto de "Peter Camenzind"

domingo, 8 de junho de 2008

"Elogio da Dialéctica"
















"A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã"

Bertold Brecht

sábado, 7 de junho de 2008

Bando azul

"(...) Respirei ar puro e fresco, bebi água gelada nos ribeiros, vi os rebanhos de cabras pastarem nas encostas abruptas, guardados pelos pastores silenciosos e de cabelos negros, ouvi por vezes as tempestades atravessarem o vale, vi neblinas e nuvens a uma proximidade incrível do meu rosto. Nas rachas das pedras vi o mundo colorido, pequenino e delicado das flores e os muitos e maravilhosos musgos, e nos dias claros subia durante uma hora à montanha para me afastar daquelas alturas e ver os picos longínquos, muito bem desenhados por sombras azuis, e prateados campos de neve. Num ponto do caminho, onde de uma pequenina e pobre fonte corria um fino fio de água, encontrava sempre nos dias claros centenas de borboletas pequenas e azuis que pousavam para beber e pouco se incomodavam com os meus passos, mas quando as perturbava deixavam-me a cambalear com um zunido de asas minúsculas e finas como seda. Desde que o descobri, ia sempre por este caminho nos dias de sol, e de todas as vezes que lá estava o bando azul e compacto era sempre uma festa. (...)"

Hermann Hesse
Excerto de "Gertrud"

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Euro 2008

A febre do Europeu de Futebol invade o País. Uma enorme campanha mediática transforma o futebol no principal acontecimento que se passa no mundo.
Não sou de falsas hipocrisias! Eu gosto de futebol e pretendo ver o maior número de jogos que conseguir!
Mas isso é uma coisa, outra é esta palhaçada de falso patriotismo que leva todos aqueles, que directa ou indirectamente contribuem para a perda de soberania do País e impedem que as pessoas tenham uma vida digna, a serem os maiores defensores de Portugal, defesa essa que começa e acaba com o futebol...
E então temos empresas, que aumentam brutalmente os seus lucros e dão aumentos salariais bem reduzidos aos seus trabalhadores, em enormes campanhas de apoio à selecção portuguesa, evidentemente, com a respectiva venda de produtos integrados nas campanhas para aumentar mais um pouquito os seus lucros!
E temos televisões e rádios a fazer do futebol a essencial e quase única noticia, como se nada mais acontecesse por cá.
Isto não é o Brasil, senão diria como diz a música de Chico Buarque:

"(...) Meu caro amigo

(...)Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito show e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta"

Chega de usar o futebol para esconderem o que estão a fazer ao País e às pessoas que nele vivem!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vir para a rua gritar!!!




Hoje, mais de 200 mil pessoas (homens, mulheres e jovens) saíram à rua, e tal como diz a canção, saíram à rua para gritar... para dizer não a esta política deste Governo.
Vieram de todos os cantos do País aos milhares para dizer que estão fartos de uma política que castiga sempre e sempre os mesmos, sempre e sempre quem trabalha e beneficia sempre e sempre os mesmos, sempre e sempre aqueles que detêm o poder económico.
Respondeu o Ministro do trabalho, (se fosse Ministro dos Patrões, estaria a designação mais acertada com a prática deste senhor), que não lhe interessa se são 1, 10 ou alguns milhares a protestar porque os objectivos do Governo e, acrescento eu, dos patrões, que o Ministro deles não disse mas pensou, são para continuar.
Ficamos esclarecidos!

Mas fica também esclarecido que estes, não 1; não 10; nem sequer alguns milhares, mas sim, 200 mil mais os outros milhares todos que não se puderam deslocar a Lisboa sairão para a rua para gritar porque, contrariando a canção que diz Não me obriguem a vir para a rua gritar!, este Governo e este Ministro mais os seus Patrões obrigam-os a vir para a rua Gritar!!!!!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Inquietação

"(...) Saído da atmosfera sóbria e oprimente da minha terra, dei grandes voos de prazer e liberdade. Se é certo que, no resto da minha vida, sempre sofri restrições, eu saboreei, contudo, o singular e apaixonado entusiasmo da juventude com abundância e plenitude. Qual jovem guerreiro repousando na orla florida da floresta, também eu vivia numa deliciosa inquietação entre o combate e a brincadeira; e como um vidente repleto de sabedoria, abeirava-me de obscuros abismos, escutando o rumorejar de grandiosas torrentes e tempestades, com a alma preparada para escutar a ressonância das coisas e a harmonia de toda a vida. Profunda e ditosamente, eu esvaziei o cálice pleno da juventude, sofri em silêncio doces penas por belas mulheres timidamente veneradas, e saboreei até ao âmago a mais nobre felicidade juvenil de uma alegre e viril amizade pura.(...)

Hermann Hesse
Excerto de "Peter Camenzind"

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sem Palavras

Queria dizê-lo a cantar
Mas não tenho voz para o fazer.
Queria em poema mostrar
Mas não tenho jeito para escrever.

Queria conseguir explicar
Tudo o que me fazes sentir
Mas nunca consigo encontrar
As palavras certas para o exprimir.

Amo-te! Posso simplesmente dizer...
Contando que possas entender
Que não chega a corresponder
A metade dos sentimentos que estou a ter.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sorriso







A cada passo que dou tenho vontade de gritar,
Mas opto por continuar o meu caminho,
No qual, cruzo-me com uma criança que está a cantar...
Não lhe dou atenção e continuo a andar sozinho.

Chego perto do parque e retenho o meu olhar
No voo de uma andorinha, o que me consegue acalmar.
É então que te avisto e sinto a cabeça latejar,
Sempre que te vejo fico assim... Dizem que é por amar....

Não sei... Não me parece... Aliás, como podia ser?
Só te vi fugazmente meia dúzia de vezes,
Não conheço a tua voz e nem o teu nome posso escrever,
Mas os nossos olhares cruzam-se todas as vezes.

Aproximaste... oiço dizer: - Olá!... Será a tua voz ou sonhei?
Decido responder com um, olá... Nervosamente.
Olhaste para os meus olhos e pela primeira vez vi-te sorrir e não sonhei!
Fiquei leve, tão leve que queria guardar esse sorriso para sempre!

domingo, 1 de junho de 2008

5 Junho - Dia de dizer NÃO!













Há que pensar no estado do País...
Após três anos de governo PS do Sr. Engenheiro José Socrates (o Sr. Porreiro pá!), o que encontramos é:
- Mais desemprego
- A maior desigualdade social entre ricos e pobres da Europa
- 3 em cada 10 crianças do 1º ciclo passam fome!
- Salários dos mais baixos da União Europeia
- Inflação sempre superior aos aumentos dos salários
- Crescimento brutal da taxa de precariedade laboral
E para culminar (cereja em cima do bolo) decidiu o governo apresentar uma proposta de alteração às Leis Laborais com os objectivos de:
- Despedir sem motivos e sem defesa
- Diminuir salários
- Horários serem definidos pelos patrões, mediante os seus humores e disposições em cada momento
- Dificultar, diminuir e tentar impedir acção dos sindicatos
- Legalizar e ampliar a precariedade laboral, estendendo-a na prática a todos os trabalhadores.

Voltar ao sec XIX - Não, obrigado! Que volte o Sr. Porreiro pá sozinho, fique por lá e não volte!

Dia 5 de Junho a CGTP-In realiza uma manifestação em Lisboa... Eu estarei lá!

Hesse



"(...) Quero renascer como uma flor. (...)"

Hermann Hesse excerto de "Todas as mortes" do livro "Elogio da Velhice"



sábado, 31 de maio de 2008

Vinicius




"(...)Rio que sou em busca do mar que me apavora(...)"

Vinicius de Morais, excerto do poema "Vida Vivida"



Porque hoje é Sábado - 3ª Parte

"(...) Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado."

Vinicius de Moraes, excerto do poema "Dia da criação"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Combustíveis e hipócritas

Muito se fala dos aumentos dos combustíveis. Comentadores, mais ou menos "encartados", adiantam explicações mais ou menos desprendidas.
São várias as opiniões que vão surgindo sobre a causa do problema, já que as consequências são claras - desastre para a economia das famílias mais desfavorecidas...
Do conjunto de opiniões, dos comentadores encartados que nas Tv's balbuciam explicações, surgem , no essencial, estas:
- Aumento do barril do petróleo nos mercados internacionais devido à especulação...
- Aproveitamento das gasolineiras da situação internacional para inflacionar exageradamente o preço dos combustíveis com o objectivo de aumentarem os lucros!

No entretanto, vem um tal Sarkozy dizer para que se baixe os impostos sobre os combustíveis, apoiado de imediato pelo Sr. Portas de cá! (há que garantir que as gasolineiras não baixam as suas vendas!)

De que se queixam os comentadores e os Sarkozy's/Portas? Não foram eles que quiseram a liberalização do mercado? A livre concorrência?
Não foram eles que defenderam a privatização da Petrogal?
Então aí têm!
Quiseram dar aos privados o domínio, a decisão e o controle do mercado (e do preço) de um produto essencial para a economia e com influência sobre todas as actividades do País. Agora deixem-se de desculpas!
A forma que o País tem para ultrapassar o problema é ser o Estado a ter nas suas mãos o controle e a decisão sobre o mercado dos combustíveis... Mas isso comentadores das Tv's Sarkozys e portas não querem!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Fogo sobre a Terra"

"A gente às vezes tem vontade de ser
Um rio cheio pra poder transbordar
Uma explosão capaz de tudo romper
Um vendaval capaz de tudo arrasar

Mas outras vezes tem vontade de ter
Um canto escuro onde poder se ocultar
Um labirinto onde poder se perder
E onde poder fazer o tempo parar

Oh, dor de saber que na vida
É melhor de saída
Ser um bom perdedor
Amor, minha fonte perdida
Vem curar a ferida
De mais um sonhador"

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 28 de maio de 2008

E o Operário disse: NÃO!
















"(...) Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ves
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! (...)"

Vinicius de Moraes, Excerto de "O Operário em construção"

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Belo e o grotesco












Na imagem do fogo existe qualquer coisa de belo!
Difícil é dizer, em concreto, onde está a beleza...
Será a mistura de cores? Azul, Verde, Laranja, Vermelho, Amarelo...
Será a luz que produz? Que até à mais escura noite dá clareza

Não sei. Só sei que no fogo existe, também, o grotesco.
Deixa em cinzas tudo aquilo em que toca,
Espalha a morte e a destruição e cria um cenário dantesco...
Mas é, também, das cinzas que a vida recomeça!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

"Pela luz dos olhos teus"








"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar"

Tom Jobim

"Ausência"







"Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Vinicius de Moraes