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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sorriso







A cada passo que dou tenho vontade de gritar,
Mas opto por continuar o meu caminho,
No qual, cruzo-me com uma criança que está a cantar...
Não lhe dou atenção e continuo a andar sozinho.

Chego perto do parque e retenho o meu olhar
No voo de uma andorinha, o que me consegue acalmar.
É então que te avisto e sinto a cabeça latejar,
Sempre que te vejo fico assim... Dizem que é por amar....

Não sei... Não me parece... Aliás, como podia ser?
Só te vi fugazmente meia dúzia de vezes,
Não conheço a tua voz e nem o teu nome posso escrever,
Mas os nossos olhares cruzam-se todas as vezes.

Aproximaste... oiço dizer: - Olá!... Será a tua voz ou sonhei?
Decido responder com um, olá... Nervosamente.
Olhaste para os meus olhos e pela primeira vez vi-te sorrir e não sonhei!
Fiquei leve, tão leve que queria guardar esse sorriso para sempre!

domingo, 1 de junho de 2008

5 Junho - Dia de dizer NÃO!













Há que pensar no estado do País...
Após três anos de governo PS do Sr. Engenheiro José Socrates (o Sr. Porreiro pá!), o que encontramos é:
- Mais desemprego
- A maior desigualdade social entre ricos e pobres da Europa
- 3 em cada 10 crianças do 1º ciclo passam fome!
- Salários dos mais baixos da União Europeia
- Inflação sempre superior aos aumentos dos salários
- Crescimento brutal da taxa de precariedade laboral
E para culminar (cereja em cima do bolo) decidiu o governo apresentar uma proposta de alteração às Leis Laborais com os objectivos de:
- Despedir sem motivos e sem defesa
- Diminuir salários
- Horários serem definidos pelos patrões, mediante os seus humores e disposições em cada momento
- Dificultar, diminuir e tentar impedir acção dos sindicatos
- Legalizar e ampliar a precariedade laboral, estendendo-a na prática a todos os trabalhadores.

Voltar ao sec XIX - Não, obrigado! Que volte o Sr. Porreiro pá sozinho, fique por lá e não volte!

Dia 5 de Junho a CGTP-In realiza uma manifestação em Lisboa... Eu estarei lá!

Hesse



"(...) Quero renascer como uma flor. (...)"

Hermann Hesse excerto de "Todas as mortes" do livro "Elogio da Velhice"



sábado, 31 de maio de 2008

Vinicius




"(...)Rio que sou em busca do mar que me apavora(...)"

Vinicius de Morais, excerto do poema "Vida Vivida"



Porque hoje é Sábado - 3ª Parte

"(...) Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado."

Vinicius de Moraes, excerto do poema "Dia da criação"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Combustíveis e hipócritas

Muito se fala dos aumentos dos combustíveis. Comentadores, mais ou menos "encartados", adiantam explicações mais ou menos desprendidas.
São várias as opiniões que vão surgindo sobre a causa do problema, já que as consequências são claras - desastre para a economia das famílias mais desfavorecidas...
Do conjunto de opiniões, dos comentadores encartados que nas Tv's balbuciam explicações, surgem , no essencial, estas:
- Aumento do barril do petróleo nos mercados internacionais devido à especulação...
- Aproveitamento das gasolineiras da situação internacional para inflacionar exageradamente o preço dos combustíveis com o objectivo de aumentarem os lucros!

No entretanto, vem um tal Sarkozy dizer para que se baixe os impostos sobre os combustíveis, apoiado de imediato pelo Sr. Portas de cá! (há que garantir que as gasolineiras não baixam as suas vendas!)

De que se queixam os comentadores e os Sarkozy's/Portas? Não foram eles que quiseram a liberalização do mercado? A livre concorrência?
Não foram eles que defenderam a privatização da Petrogal?
Então aí têm!
Quiseram dar aos privados o domínio, a decisão e o controle do mercado (e do preço) de um produto essencial para a economia e com influência sobre todas as actividades do País. Agora deixem-se de desculpas!
A forma que o País tem para ultrapassar o problema é ser o Estado a ter nas suas mãos o controle e a decisão sobre o mercado dos combustíveis... Mas isso comentadores das Tv's Sarkozys e portas não querem!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Fogo sobre a Terra"

"A gente às vezes tem vontade de ser
Um rio cheio pra poder transbordar
Uma explosão capaz de tudo romper
Um vendaval capaz de tudo arrasar

Mas outras vezes tem vontade de ter
Um canto escuro onde poder se ocultar
Um labirinto onde poder se perder
E onde poder fazer o tempo parar

Oh, dor de saber que na vida
É melhor de saída
Ser um bom perdedor
Amor, minha fonte perdida
Vem curar a ferida
De mais um sonhador"

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 28 de maio de 2008

E o Operário disse: NÃO!
















"(...) Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ves
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! (...)"

Vinicius de Moraes, Excerto de "O Operário em construção"

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Belo e o grotesco












Na imagem do fogo existe qualquer coisa de belo!
Difícil é dizer, em concreto, onde está a beleza...
Será a mistura de cores? Azul, Verde, Laranja, Vermelho, Amarelo...
Será a luz que produz? Que até à mais escura noite dá clareza

Não sei. Só sei que no fogo existe, também, o grotesco.
Deixa em cinzas tudo aquilo em que toca,
Espalha a morte e a destruição e cria um cenário dantesco...
Mas é, também, das cinzas que a vida recomeça!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

"Pela luz dos olhos teus"








"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar"

Tom Jobim

"Ausência"







"Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Vinicius de Moraes

domingo, 25 de maio de 2008

Rugas
















Vejo o rosto coberto de rugas
E ponho-me a imaginar
Quantas imensas lutas
Este rosto teve de enfrentar,

As enormes angústias
Que foi capaz de suportar,
As belas melodias
Que conseguiu entoar.

Terão sido muitos os sorrisos
Com que conseguiu encantar
Todos os homens, mais ou menos sérios,
Com que teve de lidar.

Os gritos que terá dado a parir a sua filha amada,
Certamente, ajudaram a contribuir
Para alguma das rugas
Na sua cara marcada

Invejo essas rugas
E o imenso saber
Que cada uma delas,
Certamente, deve ter.

sábado, 24 de maio de 2008

Porque hoje é Sábado - 2ª Parte

"(...)Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é Sábado(...)"

Vinicius de Morais - Excerto do Poema "Dia da Criação"

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Viagem de Comboio
















Faço esta viagem de comboio
Enquanto penso na minha vida
Que não tem nenhum mérito!
Tenho mais do que o essencial para vivê-la.
Roupa para vestir...
Comida para comer...
Saúde para dar e vender...
Carro para passear...
Computador e internet para navegar...
Telemóvel para telefonar...
Amigos com quem conviver...
E muitas outras coisas sem delas necessitar

Mas olho pela janela do comboio
E vejo um homem no campo com uma enxada
Algo, neste visão, me deixa irritado.
Penso na enxada do homem e queria tê-la
Sinto inveja do homem e do seu viver
Queria a terra revolver...
Cultivar o que vou comer...
Cavar a terra até as mãos sangrar...
Tudo o que puder semear...
Toda a terra cultivada regar...
E, certamente me sentiria viver.
Confesso começar a ter ódio
Por tudo aquilo que me afasta da vida!
.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

"Procura-se um amigo"

"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Vinicius de Moraes