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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Aquele Olhar!





Não consigo esquecer aquele olhar!
Não sei explicar qual o motivo,
Possivelmente pelo que me fez imaginar.
Mas, não sei se foi só um sonho.

Sempre que me lembro desse olhar,
Cresce em mim uma angústia
Por já não acreditar
Que esse olhar tivesse inocência...

Recordo a concretização
Desse indescritível olhar,
O que me deixa a questão
Do porquê?... De não se voltar a realizar

Sempre irei lembrar esse olhar.
Sempre irei lembrar o realizar
De tudo o que nesse olhar
Me permitiu sonhar

Espero rever esse olhar
Nem que seja num momento fugaz,
Porque, quando isso se concretizar,
Ficarei em paz!

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Lambe-botas

Foi, hoje de manhã, ao ouvir Luís Delgado numa rádio, que descobri qual o problema estrutural do País. Certamente causa de insónias para todos nós!!
Não!... Não é o enorme desemprego que afecta o País e centenas de milhares de famílias!
Não!... Também não é o brutal aumento do custo de vida!
Nem sequer são os baixos salários!
Nem o facto (divulgado hoje pelo Conselho Nacional de Educação) de 3 em cada 10 crianças do primeiro ciclo passarem fome!
Nada disto!
O verdadeiro "problema estrutural" e preocupante do País é, segundo o Exmo. comentador lambe-botas Luís Delgado, o tempo que leva em Portugal "o conseguir dar falência de uma empresa". Nem mais!

Haja paciência para aturar este pseudo-comentador, lambe-botas e bajulador dos patrões.

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

"Aquarela"













"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul

Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando,
é tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
e se a gente quiser ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida,
depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (e descolorirá)"

Vinicius de Moraes/Toquinho

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domingo, 18 de maio de 2008

Queria ser como a gota de água













Queria ser como a gota de água,
que cai daquela torneira,
poder deslizar pela superfície fria
da pedra.

Como a gota, queria unir-me
a outras gotas e ser a parte de um todo
de forma a que não fosse possível distinguir-me.
Queria ser apenas uma parte do todo!

Com as outras correr
suavemente num pequeno regato,
juntarmo-nos a um rio e correr
mais depressa num vale encantado.

Entre todas partilhar
a sujidade, enquanto atravessamos a cidade,
pois não é possível observar
uma gota limpa entre outras com sujidade.

Todas unidas festejar
o encontro com as nossas irmãs
que estão no mar
e com elas partilhar o sal que torna as pessoas sãs!

Todas nós, na praia a brincar,
daríamos cambalhotas colectivas
para as crianças encantar
com a beleza das ondas!

Queria que o sol abrasador
me fizesse evaporar
e pelos efeitos do calor
poderia voar.

Que leveza iria sentir
ao juntar-me às outras
no céu, e como iria sorrir
pela nuvem que somos e as suas formas.

Que felicidade que teria
por voltar a transformar-me em gota
que voltaria
a querer ser, apenas, uma gota!

sábado, 17 de maio de 2008

Porque hoje é sabado - 1ª Parte

"(...)Neste
momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado(...)"

Vinicius de Moraes - Excerto do poema "Dia da Criação"

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Estou a sonhar...


















Observo o mar do cimo da falésia,
Fecho os olhos enquanto sinto a suave brisa,
O perfume e a música do mar invadem os meus sentidos.
Imagino os meus pés a separarem-se da falésia
E o meu corpo a cortar a brisa,
Sobrevoo acima do mar e uma ave aponta-me os olhos.

Não parece espantada com o meu voar
Mas não me parece que se queira aproximar
Talvez porque procure o que comer
Como logo a seguir percebo no seu mergulhar.
Regressa, em seguida, com um peixe que se tenta soltar
Apesar do seu destino ser morrer!

Decido descer até ao mar e mergulhar,
Sustenho a respiração enquanto fico a observar
Um cardume de coloridos peixes num estranho bailar!
Repentinamente, lembro-me que preciso de respirar!
Regresso ao céu para sobre o mar voar,
Mas o som de uma criança lembra-me que estou a sonhar...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

"Valsinha"

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais,
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"


Chico Buarque

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quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Rosa de Hiroxima"





"Pensem nas crianças
Mudas, telepáticas...
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas...
Pensem nas mulheres
Rotas, alteradas...
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas...
Mas, oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa,
Da rosa de Hiroxima,
A rosa hereditária.
A rosa radioativa,
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose,
A anti-rosa atômica.
Sem cor, sem perfume,
Sem rosa, sem nada."

Vinicius de Moraes/Ney Matogrosso

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sábado, 10 de maio de 2008

"Gente Humilde"

" Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar,
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar,
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio,
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar,
E, aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar.

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar,
Pela varanda
Flores tristes e baldias,
Como a alegria
Que não tem onde encostar,
E aí me dá uma tristeza
No meu peito,
Feito um despeito,
De eu não ter como lutar.
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde,
Que vontade de chorar"


Vinicius de Moraes/Chico Buarque

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A Moção de censura e as amizades!

Hoje, o Governo PS/Sócrates enfrentou uma moção de censura na Assembleia da República, o resultado foi o natural e esperado chumbo pela maioria socialista que alimenta este Governo e os interesses que este sustenta, os interesses dos grandes, daqueles que se enchem de lucros à custa daqueles que cada vez têm mais dificuldade, daqueles que contam os cêntimos, cêntimos esses que para muitos já não chegam para o pão até fim do mês.

Mas, independentemente do resultado da votação, ficaram dois dados interessantes:

Primeiro - as alterações às Leis Laborais são para benefeciar os mesmos, os "Grandes amigalhaços" do Sr. "Porreiro pá" que acumulam lucros atrás de lucros, milhões atrás de milhões, mais valias atrás de mais valias e vomitam arrogância, ostentação e prepotência, fazendo-se sempre passar por muito preocupados pela necessidade de modernidade e competitividade do País, País esse que começa neles próprios e termina no umbigo deles próprios!

Segundo - O PSD e o CDS-PP abstiveram-se porque não concordaram com os fundamentos da moção apresentada pelo PCP. E não concordaram, porque estão de acordo com Leis que sirvam os "Grandes amigalhaços" do Sr. "Porreiro pá", que são, também, os seus "Grandes amigalhaços". E isto foi, talvez, o melhor do dia! Percebe-se, assim, que o Sr. "Porreiro pá" e o seu Partido, os Srs. "Talvez não tão porreiros pá" do PSD e do CDS são todos, igualmente, amigos dos "Grandes amigalhaços" que acumulam lucros atrás de lucros, milhões atrás de milhões, mais valias atrás de mais valias, à custa das dificuldades e contar de cêntimos de milhares e milhares de portugueses.

São, no fundo, 3 ramos da mesma árvore (certamente, um eucalipto que tem como objectivo secar tudo à sua volta)

Mas, para todos eles ("Grandes amigalhaços", Srs. "Porreiro Pá" e Srs. "Talvez não tão porreiros pá"), a verdadeira moção de censura ainda está por vir e será aquela que todos aqueles que continuam a contar cêntimos (e cada vez contam menos cêntimos) lhes farão!


terça-feira, 6 de maio de 2008

A grandeza subjectiva!












Até na sua grandeza...












... e beleza...












...não consegue evitar...









... ser engolido

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Pensamentos

Passo pelas ruas
esquecido do que me envolve,
não reparo nas caras
de quem passa por perto,
não sei quem são e, também,
de momento, pouco me dizem...
Passo pelas ruas
perdido nos pensamentos,
desencontrado de mim mesmo,
mas à procura... não sei...
Procuro o quê?...
Procurar-me-ei a mim?... ou a ti?...
Talvez procure em mim porque te perdi!
Não sei se terei a resposta,
ou se a encontrarei...
Nem sei se ela está em mim...
Talvez esteja em ti...
Ou poderá não estar em ninguém!
Passo pelas ruas e penso:
Voltarei a encontrar-te?
Passo pelas ruas e percebo:
preciso encontrar-me...

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tiques...


Um jovem dirigente sindical participou no passado dia 28 Janeiro no programa de televisão "prós e contras" a propósito da situação do País, nesse programa falou da sua situação económica e do facto de a sua empresa não dar aumentos há 3 anos.
A administração da Cerâmica Torreense decidiu abrir um processo disciplinar com vista ao despedimento deste jovem por... ter participado no programa!?!
Independentemente do facto de o processo para despedimento não passar em nenhum tribunal, o verdadeiro problema está no facto de uns quantos senhores se acharem no direito de tentar censurar aquilo que se pode dizer ou não! Noutros tempos de má memória seriam os senhores do "Lápis azul". Hoje são uns quantos que com maiores ou menores ligações ao Governo PS/Sócrates do País, sentem-se à vontade para expressar os seus tiques fascistas!


segunda-feira, 7 de abril de 2008

"Estrela da tarde"

"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto."

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O banquete do abutre

Porquê?
Não tiveste direito a crescer...
Terás sentido as primeiras bicadas do abutre a rasgar-te a pouca carne que tinhas?
E terás gritado?
Qual seria o teu nome?
Gostava de saber...
Onde estariam os administradores do Banco Mundial, os tipos da ONU e os donos de bancos e empresas no mesmo momento em que a foto foi tirada?
A contarem os seus lucros?
A prepararem-se para algum banquete, como o abutre que está atrás de ti?
E será que lhes passou algum arrepio na espinha quando o abutre deu a primeira bicada?
Quantos mais como tu acabarão assim?
Mas descansa que um dia aqueles que permitem que te aconteça o que te aconteceu irão pagar...